Avatar

sábado, 1 de maio de 2010

e-Fólio B

Ficha de Leitura
Matos, Margarida Gaspar de
“ A saúde do adolescente: O que se sabe e quais são os novos desafios”
Análise psicológica (2008), 2 (XXVI): 251-263
Artigo extraído do site: http://www.scielo.oces.mctes.pt/pdf/aps/v26n2/v26n2a07.pdf
Resumo:
O artigo de Margarida Gaspar de Matos aponta os conhecimentos adquiridos, e dados como certos, acerca dos adolescentes, fazendo de seguida uma referência ao mundo da música perspectivado pelos adolescentes, assim como uma alusão ao mundo virtual, em resultado dos novos tempos. Finalmente, alerta para os novos desafios que estes enfrentam, passando pelas novas necessidades de apoio.
Começando por analisar aquilo que já se sabe, a autora refere três aspectos fundamentais que caracterizam os adolescentes, são eles:
- a constatação de que a puberdade marca o início da adolescência, sendo que, através das alterações físicas, os jovens se confrontam com uma nova realidade a que têm de se ajustar, quer a nível familiar quer entre os pares, e para a qual não devem descurar os novos factores de risco e protecção;
- a importância dos modelos sociais, nomeadamente dos pais da criança, pois estes repercutem para os jovens os seus próprios padrões de comportamento;
- o isolamento e a agressividade, assim como a tendência para aderir a comportamentos de risco para a saúde, resultam da dificuldade de relacionamento interpessoal.
No que diz respeito à família, sabe-se que:
- constitui o suporte das relações afectivas e sociais da criança, servindo igualmente de base nas suas estruturas cognitivas;
- o estilo parental apoiado numa maior interactividade e participação e numa maior responsabilização dos jovens, e na sua relação com os pares, fomentará a protecção dos adolescentes. Opondo-se, portanto, a um estilo punitivo, mais frequente nas famílias de baixos rendimentos, que acusam uma maior rejeição dos filhos;
- é importante que os jovens percepcionem o controlo parental e mantenham uma relação estável e equilibrada com pelo menos um dos pais.
Quanto aos amigos, Margarida Gaspar de Matos salienta que “As crianças mais populares têm mais oportunidades de interacção social e por isso mais oportunidades de aprendizagem e prática de competências de relacionamento interpessoal.” (p.252). Frisa o facto de que o isolamento promove a diminuição das capacidades de aceitação social, aumentando, por conseguinte, a propensão para situações de risco.
A relação com os pares permite, pois, que a criança aprenda “…as regras de vida na comunidade e as regras de futuras relações interpessoais.” (p.252).
Apesar da crescente necessidade de autonomia relativamente aos pais, os adolescentes precisam de complementar esta relação, que deve ser positiva, com o grupo de pares e com a escola. Sendo este equilíbrio necessário para que os jovens se protejam de comportamentos de risco.
Margarida Matos considera que a capacidade de relacionamento social promove inequivocamente uma melhor adaptação à idade adulta. Dá especial enfoque ao amigo próximo e ao grupo de pares no seu papel crucial para a construção da identidade dos adolescentes, pois são estes que irão desencadear o desenvolvimento pessoal, transmitindo as ideias que espelham a sua cultura e os seus valores “…guiando os adolescentes no desenvolvimento das suas competências emocionais e cognitivas (…) actuando como uma formação para a vida adulta.” (Brown apud Matos, 2008).
Neste artigo, pode-se constatar o relevo que os jovens dão à música, possibilitando-lhes uma identificação com determinado estilo, o que contribui para a construção da sua identidade. Assim, “…a música tem um espaço único na vida dos adolescentes, com elevado impacto emocional, sendo usada para equilíbrio das emoções e afastamento do aborrecimento.” (p.255). Margarida G. de Matos faz ainda referência ao facto das opções musicais reflectirem certos problemas dos adolescentes, quer de internalização – depressão, quer de externalização – agressividade e violência. Estas e outras apreciações são corroboradas pelo estudo HBSC, realizado em Portugal no ano de 2006, através da participação de 4977 adolescentes de ambos os sexos. Neste estudo conclui-se que os gostos musicais ganham maior definição à medida que os jovens avançam na idade.
Para melhor compreensão dos jovens da geração virtual, a autora alude ao impacto que as novas tecnologias de informação e comunicação exercem nas relações sociais dos adolescentes. Assim, constata-se que os jovens afastam-se gradualmente dos comportamentos de risco, uma vez que decrescem as saídas à noite, todavia privam-se do contacto emocional e social dos adultos. Isto porque o computador preenche cada vez mais os requisitos dos jovens, sejam de carácter académico, de entretenimento ou de meio de socialização. Note-se que existem inclusive jogos virtuais que criam “mundos” em tudo semelhantes ao real. Resta saber quais “…as consequências de saúde pública, saúde mental e saúde social...” (p.258) como muito bem refere a autora deste artigo, pois ainda é cedo para prever.
O certo é que se torna evidente um crescente isolamento pessoal e social, e, portanto, uma maior aptidão para outros riscos para a saúde.
Por último, o artigo apela aos novos desafios, tais como o cyber-bullying, conceito em tudo semelhante ao bullying já que se refere a uma perseguição por parte de alguém mais forte e persuasivo. Assim, “o mal estar pessoal e social associado a este fenómeno é considerável, chegando mesmo a ocasionar problemas de saúde física e mental e, em casos extremos, violência chegando ao suicídio.” (p.259). A internet permite ainda a criação de amizades que, quando envoltas pelo anonimato, podem transformar-se em desilusões, causando medo (em caso de ameaças implícitas) ou luto, se desaparecem.
Para uma tentativa de entendimento das novas necessidades de apoio familiar e profissional urge tentar ser útil aos adolescentes “…estimulando a procura de diversas alternativas para enfrentar os diversos desafios e estímulos (…) tais como o stress, a insegurança, o aborrecimento / tédio e depressão…” (p. 259). O lazer torna-se, pois, um meio por excelência eficaz no combate ao risco, permitindo aos jovens a descoberta do equilíbrio através das relações inter-sociais, uma vez que promove a adopção de estilos de vida saudáveis.
Ao nível da educação existem programas de intervenção que, em conjunto com a família, a escola e a comunidade, colocam os jovens como seus parceiros e pares, com o objectivo de promover igualmente hábitos e estilos de vida saudáveis. O desafio maior será ainda saber como acompanhar e apoiar a nova geração de adolescentes que se demarca pela fluente utilização das novas tecnologias de comunicação.

Comentário:
Artigo pertinente e actual. Fundamenta-se num vasto leque de teorias que enformam os conhecimentos acerca da adolescência, visando uma reflexão atenta aos novos factores de risco e protecção. Foca a necessidade de despertar para a nova realidade virtual, promovida pela crescente utilização das tecnologias de informação e comunicação. O bem-estar e a saúde dos adolescentes passam, pois, pela consciência de que há novos desafios a enfrentar nesta fase basilar para a conquista de autonomia e construção da identidade.
Bibliografia complementar:
- Morgado, L. & Costa, A. (2009).Textos de Suporte ao Tema 2;
-TAVARES et al (2007). Manual de Psicologia do Desenvolvimento e Aprendizagem, Porto Editora, Porto, pp. 42-82.